quarta-feira, 1 de março de 2017

Difícil de passar, engraçado de contar

Ela ia se encontrar com um amor antigo. De uns 30 anos atrás. Amor desses que ficou no ar, já que por circunstâncias espaciais, foi morrido assim logo que nasceu. Mas amor. Desses que fica na memória e depois basta ir lá na caixinha onde está guardado, abrir, espanar um pouco, e está intacto. Esqueçamos o caleidoscópio que chacoalhou a vida de ambos em várias direções, outros amores, vida vivida, sonhada, pensada, revivida, ressonhada... Dores, alegrias, prazeres, feitos, assim de um tudo em vida de artista, que não deixa de ser gente normal também.
Achou ele na internet, num lugar do mundo que por acaso ia passar quase que na esquina, por dois dias. Era só comprar duas passagens de trem em vez de uma, parar, e querer. E que ele quisesse também, porque estava casado. Pois quiseram.
Tá certo que ela agora tinha se desvirtuado de foco na vida pela enésima vez e virara ativista política. E que sua adrenalina quase a matara, se não fosse o reiki e a yoga em igual proporção. Pois junta trabalho, pouco sono, uma turnê artística, esses 30 e muitos mais anos na cacunda, e o encontro, seu corpo tava bem fora do lugar, funcionando aos avessos.
Enfim, percebeu que estava com cistite quando chegou num país onde se falava alemão (que pra ela era como grego), na casa de um amigo feito até então por contatos virtuais e em algumas horas desse mesmo dia. Resultado: trabalhando, sem tempo, seguro de viagem, nem cabeça pra cuidar disso, piorou.
A próxima parada era o encontro, o amor, aquilo tudo do primeiro parágrafo, e a cistite. E a língua da nova etapa, também alemão, como o ex, que também falava português. Esse amor, mesmo curto e sem ponto final, teve longa comunicação por meio de cartas em português, as mais amorosas que ela já recebeu na vida!
A cena do encontro: na estação de trem se reconhecem rapidinho, mesmo com a nova cor dos cabelos, as rugas... Enfim... se dão um abraço e se dizem: - Tudo bem?
Ela até que respondeu: - Tudo bem!  
Mas depois de uma viagem quase febril, indo 17 n vezes ao banheiro em poucas horas e sabendo que não ia suportar nem mais um tiquim daquela infecção, soltou: - Mas estou com uma terrível infecção urinária!
Ele muito solícito, e com cara de dó, foi se situando pra achar um médico perto, e possível. Que ela foi logo dizendo que se tivesse que pagar 500€ preferia morrer.
Conseguiram. Ele chega e vai contando a intimidade dela em alemão pra Deus e o mundo. Desde a moça da portaria, até a atendente e a dos exames. E se virava pra ela e perguntava sobre isso e aquilo, da situação física urinária, genital, feminina, geral, nos mínimos detalhes em português, e reconta para as outras em alemão, e ela observa as expressões das conversas: interesse, dúvida, esclarecimento, riso.
Ela e a vontade de fugirdesapareceresfumar-seedesintegrar-se, se desmilinguia em desculpas, explicações e mais explicações, e senões, e justificativas, sorrindo amarelo, azedo.
Ao abrir a porta do consultório da médica, se dá conta de que ele tinha que entrar também, pois como é que ela ia se entender com a médica em alemão? Naquelas alturas, já não sabia mais o que era não sentir mal-estar, cistite e vergonha.
Quando entra na sala da médica, olhos arregalados, garganta seca e cara de bunda ao ver a cama ginecológica de abrir as pernas para o exame.


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