terça-feira, 13 de setembro de 2016

A metamorfose da vizinha

Ela era bem fria comigo, pra não dizer curta e... grossa. Será que não era pra menos? Eu “usava” o marido dela, que também era brasileiro, pras necessidades domésticas como o  mecanismo do cabo do gás do fogão, a parafuseta do negocinho da descarga que tinha desencaixado, o martelo e o alicate pra isso e aquilo, etc. Imaginem a situação: você brasileira, morando num lugar onde as pessoas quase não se cumprimentam... Essa história de pedir xícara de açúcar, pitada de sal e isso e aquilo, e que você paga na mesma moeda ou com dois dedos de prosa, um sorrisão na cara, a eterna gratidão e “bons dias” floridos exalando perfume... isso tudo é da nossa cultura brasileira, na Europa não existe isso não, a não ser as exceções.
Pois não sei bem os limites dentro dos hemisférios do globo cerebral de cada pessoa, só sei que achei de bom tom, nunca mais pedir nada.
Fechar a cara também, pra não ficar com aquela outra de boba, esperando um assuntinho qualquer dentro do elevador, mesmo que sobre o tempo ou a crise. A segunda opção tampouco adiantou.
O marido, sei lá que caras e bocas faz pra ela, mas pra mim, como sempre, as melhores que tem, mas enfim, fiquei só com a sua cara boa e nunca mais nada dos seus tão necessários servicinhos.
Pois ela ficou grávida.  Somei a cara de bunda da vizinha com choro de neném, de noite, com crianças pentelhas correndo e gritando e sacudindo as estruturas do edifício e o resultado da equação na minha cabeça não tinha nada de lindo, de bom e de bucólico. Na minha pretensa sabedoria, achava que infelizmente aquele gen tão desprezível ia se multiplicar e contaminar mais o nosso planetinha. E olha que acho a gravidez a coisa mais linda do universo. Mas só tive mesmo a vontade de, se possível, um dia me mudar pra não ter que conviver com aquele inferninho de ruído e de gente chata que já estava montado na minha imaginação.
Pois o bebê nasceu. E nada, eu não ouvia nada. Deus que me perdoe, mas pensamento todo mundo sabe que não há como controlar. Depois de pensado a gente pode até escolher qual a gente quer dar corda, mas esses que vêm assim sem avisar  e pegam a nossa moral cristã de calças na mão, fazer o que... mas enfim, pensei que o bebê tinha morrido. E que aquele monte de consequências desagradáveis que eu esperava daquela gravidez, iria enfim me tornar livre, sem ter nem que me mudar de casa mais.
Como não faziam ruído nenhum, eu, graças a Deus, não pensei mais monstruosidades e nem me lembrei deles. Também já tinha feito seguro de água e agora era só chamar a companhia para os reparos se por acaso, e ir alternando os outros vizinhos com um pedido só pra cada um, que não daria nem assunto pra que eles me achassem uma folgada.
Um belo dia, quer dizer, uma bela noite, comecei a escutar a mãe, pra ser mais clara, a avó do bebê, que por causa da diferença de horário entre a Europa e o Brasil, começava a gritar pelo skipe, justamente na hora do meu merecido e necessário descanso para a labuta do dia seguinte. Fora que a voz nem timbre bonito, nem sotaque, que era o ó. Aí tomei raiva da terceira geração, que ainda não conhecia. A ponto de ter que lembrar-lhe com alguns toquezinhos no chão, que aquela hora poderia ser boa no Brasil, mas aqui não tinha graça nenhuma, aqui era hora de um dos melhores soníferos, o silêncio.
Foi um dia, encontrei toda a família e pude conhecer o bebê que tava vivo, graças a Deus, mas que era feio de doer. A mãe, em fase de recuperação, tinha a cara de bunda  habitual somada a sabe-se lá o que, ou a decepção de tanto esforço pra gerar aquele monstrinho, enfim, dei os parabéns, menti descaradamente dizendo que era lindo e segui.
Pois não sei bem o que esse bebê tem dito à mãe, a língua ou código que utiliza, as mensagens que saem dos seus olhos, a força da vida que o impulsiona, não entendo bem, a magia da nossa existência é tão preciosa...  não sei bem os sentimentos que não conseguimos explicar, que têm nome de amor, mas que talvez sejam muito mais infinitos e complexos do que uma palavra tão pequena... não sei o que ocorre quando essa mãe cuida desse serzinho indefeso e forte, da conexão que têm no fio da vida... não sei... nada sei....
Só uma coisa: a vizinha agora é só sorrisos pra mim. Puxa assunto. Me espera na porta do supermercado pra subir comigo. Naquele cara a cara e silêncio do elevador, descontraída fala  do tempo, da crise e qualquer tema. Alegre, feliz. O bebê é lindo, ficou mais bonito ainda de carona com a felicidade da mãe. Eu continuo sem pedir nada, porque já ganhei uma vizinha feliz com um bebê gracioso.
Quando ouço o choro do bebê, feliz, penso, está vivo!!!!!!!!!!   

A felicidade só não é completa porque soube que eles vão se mudar em breve.    

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