A metamorfose da
vizinha
Ela era bem fria comigo,
pra não dizer curta e... grossa. Será que não era pra menos? Eu “usava” o
marido dela que também era brasileiro pras necessidades domésticas como o mecanismo do cabo do gás do fogão, a parafuseta
do negocinho da descarga que tinha desencaixado. O martelo e o alicate pra isso
e aquilo, etc. Imaginem a situação: você brasileira, morando num lugar onde as
pessoas quase não se cumprimentam... Essa história de pedir xícara de açúcar,
pitada de sal e isso e aquilo emprestado só um pouquinho, e que você paga na
mesma moeda ou com dois dedos de prosa, um sorrisão na cara, a eterna gratidão
e “bons dias” floridos exalando perfume... isso tudo é da nossa cultura
brasileira, na Europa não existe isso não, a não ser as exceções.
Pois não sei bem os
limites dentro dos hemisférios do globo cerebral de cada pessoa, só sei que
achei de bom tom, nunca mais pedir nada.
Fechar a cara também,
pra não ficar com aquela outra de boba, esperando um assuntinho qualquer dentro
do elevador, mesmo que sobre o tempo ou a crise. A segunda opção tampouco
adiantou.
O marido, sei lá que
caras e bocas faz pra ela, mas pra mim, como sempre, as melhores que tem, mas
enfim, fiquei só com a sua cara boa e nunca mais nada dos seus tão necessários
servicinhos.
Pois ela ficou
grávida. Somei a cara de bunda da
vizinha com choro de neném, de noite, com crianças pentelhas correndo e
gritando e sacudindo as estruturas do edifício e o resultado da equação na
minha cabeça não tinha nada de lindo, de bom e de bucólico. Na minha pretensa
sabedoria, achava que infelizmente aquele gen tão desprezível ia se multiplicar
e contaminar mais o nosso planetinha. E olha que acho a gravidez a coisa mais
linda do universo. Mas só tive mesmo a vontade de, se possível, um dia me mudar
pra não ter que conviver com aquele inferninho de ruído e de gente chata que já
estava montado na minha imaginação.
Pois o bebê nasceu. E
nada, eu não ouvia nada. Deus que me perdoe, mas pensamento todo mundo sabe que
não há como controlar. Depois de pensado a gente pode até escolher qual a gente
quer dar corda, mas esses que vêm assim sem avisar e pegam a nossa moral cristã de calças na
mão, fazer o que... mas enfim, pensei que o bebê tinha morrido. E que aquele
monte de consequências desagradáveis que eu esperava daquela gravidez, iria
enfim me tornar livre, sem ter nem que me mudar de casa mais.
Como não faziam ruído
nenhum, eu, graças a Deus, não pensei mais monstruosidades e nem me lembrei
deles. Também já tinha feito seguro de água e agora era só chamar a companhia para
os reparos se por acaso, e ir alternando os outros vizinhos com um pedido só
pra cada um, que não daria nem assunto pra que eles me achassem uma folgada.
Um belo dia, quer
dizer, uma bela noite, comecei a escutar a mãe, pra ser mais clara, a avó do
bebê, que por causa da diferença de horário entre a Europa e o Brasil, começava
a gritar pelo skipe, justamente na hora do meu merecido e necessário descanso para
a labuta do dia seguinte. Fora que a voz nem timbre bonito, nem sotaque, que
era o ó. Aí tomei raiva da terceira geração, que ainda não conhecia. A ponto de
ter que lembrar-lhe com alguns toquezinhos no chão, que aquela hora poderia ser
boa no Brasil, mas aqui não tinha graça nenhuma, aqui era hora de um dos
melhores soníferos, o silêncio.
Foi um dia, encontrei toda
a família e pude conhecer o bebê que tava vivo, graças a Deus, mas que era feio
de doer. A mãe, em fase de recuperação, tinha a cara de bunda habitual somada a sabe-se lá o que, ou a
decepção de tanto esforço pra gerar aquele monstrinho, enfim, dei os parabéns,
menti descaradamente dizendo que era lindo e segui.
Pois não sei bem o que
esse bebê tem dito à mãe, a língua ou código que utiliza, as mensagens que saem
dos seus olhos, a força da vida que o impulsiona para a vida, não entendo bem, a
magia da nossa existência é tão preciosa...
não sei bem os sentimentos que não conseguimos explicar, que têm nome de
amor, mas que talvez sejam muito mais infinitos e complexos do que uma palavra
tão pequena... não sei o que ocorre quando essa mãe cuida desse sersinho
indefeso e forte, da conexão que têm no fio da vida... não sei... nada sei....
Só uma coisa: a
vizinha agora é só sorrisos pra mim. Puxa assunto. Me espera na porta do
supermercado pra subir comigo. Naquele cara a cara e silêncio do elevador,
descontraída fala do tempo, da crise e
qualquer tema. Alegre, feliz. O bebê é lindo, ficou mais bonito ainda de carona
com a felicidade da mãe. Eu continuo sem pedir nada, porque já ganhei uma
vizinha feliz com um bebê gracioso.
Quando ouço o choro do
bebê, feliz, penso, está vivo!!!!!!!!!!
A felicidade só não é
completa porque soube que eles vão se mudar em breve.
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