terça-feira, 13 de setembro de 2016

A caixa de beijos

Libélula fêz tudo conforme o figurino. Sua alma sabia como fazer, aprendera no colégio de freiras que estudou na infância e sua mãe, educada e moralista, lhe ensinara o resto. Como a tia dele não podia imaginar (é claro que ela imaginava) nada sobre eles, Libélula mandou-lhes um cartão cortês, com desejos de felizes festas. No bilhetinho enviado junto com o CD, nenhum dado, pista, nada, tudo bem correto e discreto. Estava perfeito!
Entrou na fila do correio, leu e releu várias vezes o conteúdo confirmando cada detalhe do cartão e do bilhete, não havia mais o que mexer.
Na sua vez de ser atendida, a funcionária do correio lhe ofereceu dois modelos de caixa de sedex e perguntou qual queria: uma com balõezinhos (bem sem graça, apesar dos balões coloridos) e a outra cheia de beijos.
Que situação! Uma questão tão profunda, pra se resolver na fila dos correios.
Quem falou primeiro foi o diabinho, é lógico, escolheu a de beijos, pra deixar dúvidas, incomodar. Ainda mais que tais beijos eram o desejo mais ardente de Libélula, (ultimamente nem ela mesmo sabia, esquecidos que estavam na gaveta do tempo). Beijos que vinham com uma força de explosão de carícias no amado, no seu corpo, rosto, boca, em cima em baixo, aqui, ali, do lado de cá e de lá, tudo, saboreado e repetido. Sim, era esse o desejo, que num segundo infinito se agigantava e era ali simbolizado pela caixa de beijos.
O anjinho, tadinho, que até então era seu companheiro, não teve tempo hábil para argumentar, deixar a razão se manifestar, além da sem graceza estética da caixa de balões.  Libélula sabia que a tia ia se desnortear com aquela caixa de beijos, mas como conter um furacão? De beijos melados, molhados, beijos e mais beijos, que passariam pelas mãos dele, olhos, coração, pensamento, bem mais perto do que a distância que os “unia” ultimamente. Ele nem mais recebia demonstrações de tais desejos, Libélula havia murchado suas asinhas. Graças à sua memória de inseto, ela já nem se lembrava mais o porquê, mas guardou seus ímpetos para libertá-los ao vivo e à cores, se rolasse assim bom como sempre foi.

Enfim, agora está feito, e não adianta chorar sobre beijos derramados. Libélula só aguarda o bafafá que uma caixa com um monte de beijos pode causar. 

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