A caixa de beijos
Libélula fêz tudo conforme o figurino. Sua alma sabia como
fazer, aprendera no colégio de freiras que estudou na infância e sua mãe,
educada e moralista, lhe ensinara o resto. Como a tia dele não podia imaginar
(é claro que ela imaginava) nada sobre eles, Libélula mandou-lhes um cartão
cortês, com desejos de felizes festas. No bilhetinho enviado junto com o CD,
nenhum dado, pista, nada, tudo bem correto e discreto. Estava perfeito!
Entrou
na fila do correio, leu e releu várias vezes o conteúdo confirmando cada
detalhe do cartão e do bilhete, não havia mais o que mexer.
Na
sua vez de ser atendida, a funcionária do correio lhe ofereceu dois modelos de
caixa de sedex e perguntou qual queria: uma com balõezinhos (bem sem graça,
apesar dos balões coloridos) e a outra cheia de beijos.
Que
situação! Uma questão tão profunda, pra se resolver na fila dos correios.
Quem
falou primeiro foi o diabinho, é lógico, escolheu a de beijos, pra deixar
dúvidas, incomodar. Ainda mais que tais beijos eram o desejo mais ardente de
Libélula, (ultimamente nem ela mesmo sabia, esquecidos que estavam na gaveta do
tempo). Beijos que vinham com uma força de explosão de carícias no amado, no
seu corpo, rosto, boca, em cima em baixo, aqui, ali, do lado de cá e de lá,
tudo, saboreado e repetido. Sim, era esse o desejo, que num segundo infinito se
agigantava e era ali simbolizado pela caixa de beijos.
O
anjinho, tadinho, que até então era seu companheiro, não teve tempo hábil para
argumentar, deixar a razão se manifestar, além da sem graceza estética da caixa
de balões. Libélula sabia que a tia ia
se desnortear com aquela caixa de beijos, mas como conter um furacão? De beijos
melados, molhados, beijos e mais beijos, que passariam pelas mãos dele, olhos,
coração, pensamento, bem mais perto do que a distância que os “unia”
ultimamente. Ele nem mais recebia demonstrações de tais desejos, Libélula havia
murchado suas asinhas. Graças à sua memória de inseto, ela já nem se lembrava
mais o porquê, mas guardou seus ímpetos para libertá-los ao vivo e à cores, se
rolasse assim bom como sempre foi.
Enfim,
agora está feito, e não adianta chorar sobre beijos derramados. Libélula só
aguarda o bafafá que uma caixa com um monte de beijos pode causar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário